Carta sobre uma viagem à minha infância

Fevereiro 24, 2025 · 5 min leitura

Querido pai,

Há muito que quero contar-lhe sobre uma viagem. Um sonho nascido em segredo, num tempo que não sei precisar e que, pouco a pouco, foi crescendo dentro da minha cabeça, à espera do tempo exato. Uma viagem a um lugar só nosso.

No verão passado, finalmente o sonho materializou-se. Meio século depois, voltava ao lugar da minha infância. Ao lugar onde moram ainda muitas das minhas histórias. Planeámos o roteiro e fizemo-nos à estrada, nós três e a nossa cadela.

Após uma noite inteira de viagem, chegámos de manhã àquela paisagem que ainda guardava na memória: uma planície a perder de vista. À saída da autoestrada, um campo de girassóis dava-nos as boas-vindas. Ao fundo, numa pequena elevação, avistavam-se os dois pináculos da catedral: Notre-Dame de Chartres.

Visitámos o centro histórico da cidade medieval, as ruas estreitas e as inúmeras pontes de pedra que ligam as habitações aos vários canais do rio Eure.

Mas o mais emocionante foi, no dia seguinte, visitar dois locais muito especiais: a casa onde vivemos e a minha primeira escola.
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A nossa casa ainda está lá. Quase igual, com a pequena marquise na entrada da cozinha, onde aprendi a andar de bicicleta, à volta da mesa. Lembra-se? Pedi que o pai tirasse as rodinhas de apoio e aproveitei os dias em que a mãe esteve na maternidade para aprender. Tinha quase sete anos e queria fazer uma surpresa à mãe quando ela chegasse a casa com o mano.

O portão da rua, onde me empoleirava a comer baguettes, ainda é o mesmo, mas mudou de cor. Agora é verde-escuro. Em frente, no outro lado da rua, lá estão os dois plátanos enormes. As árvores da minha infância, testemunhas das minhas corridas de trotinete.

O nosso quintal encolheu, agora acompanha apenas a largura da casa. Já não existe o espaço onde estavam as galinhas e os coelhos, a grande nogueira e o lago onde eu, ao fim de semana, gostava de observar os patos a mergulharem no lodo, logo pela manhã. O lago cercado de lilases perfumados já não existe. Nem a horta, nem a cerejeira, nem os abrunheiros, nem a avelaneira ao fundo, junto da sebe de groselhas que também já não existe.

A casa dos irmãos Gilbert e Roger, os nossos senhorios, também já lá não está. Nem a casa nem o quintal que se estendia até ao fundo. No espaço dos dois enormes quintais, o nosso e o deles, ergue-se agora um condomínio privado com o nome Le Cerisale. Abriram uma rua entre a nossa casa e a deles, de acesso às moradias. Os terrenos antes cultivados deram lugar a bonitas vivendas, a ruas, a passeios com árvores e arbustos e a amplas zonas ajardinadas.

Passámos junto ao portão da quinta dos pais do meu amigo Eric, com quem brincava, e aonde ia diariamente comprar leite. Estava fechado e não havia vestígios da quinta de outrora. Está muito bonito o lugar onde vivemos, pai. Os quintais foram substituídos por jardins e moradias. Mas o charme próprio de uma pequena localidade nos arredores da cidade mantém-se. Está tudo muito limpo e cuidado.

Depois, fomos à escola pelo caminho pedonal que agora liga as duas localidades vizinhas: Les Chaises e Le Coudray. Um campo enorme de relva, com arbustos e árvores, junto à estrada. Na entrada, à esquerda, foi construído um grande centro hospitalar. No centro da pequena localidade, lá está a escola, agora chamada École Élémentaire Leonardo da Vinci, que frequentei até aos nove anos, altura em que regressámos a Portugal.

Lembro-me do meu primeiro dia de aulas. A professora era a Madame Blanche. E logo no primeiro dia fui contemplada com um puxão de orelhas. Não estava habituada a lápis de cera, não sabia que eram tão frágeis. Todos os que a professora me colocava na mão se partiam em dois pedaços, em poucos segundos. Parecia uma maldição. A professora devia pensar que era de propósito, por isso me castigou. Lembro-me de brincarmos no recreio. Recordo-me de, no início do verão, subirmos às tílias do pátio, com a ajuda da professora, para colhermos as flores e as folhas mais tenras. Depois, no final do dia, cada um de nós levava um saquinho de chá de Tilleul para oferecer à mãe.

Na viagem de regresso, após mais de três mil quilómetros de estrada, ficou uma sensação de bem-estar, de pacificação com um passado que eu precisava reencontrar, reviver.

Foi uma viagem ao lugar das memórias e dos afetos. E dentro daquele carro não iam apenas nós três e a cadela. Também lá ia o pai. Esteve sempre connosco. Acompanhou cada um dos nossos passos, viu cada uma das imagens antes mesmo de chegarem à nossa retina.

Foi a nossa viagem.

Resta-me agradecer-lhe por ter escolhido aquele local para vivermos. A sorte que tenho de ali ter tido uma infância tão feliz! Obrigada, pai!

Com carinho,
Manuela
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Lisboa, 24 de fevereiro de 2025

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