Professora por dois anos

Agosto 4, 2026 · 3 min leitura

Há lugares que nos devolvem, num instante, quem fomos e nos ajudam a compreender quem somos hoje.

No fim de semana, estive no Algarve para visitar a minha mãe e passei pela Escola Básica 2,3 D. Dinis, a antiga Escola C+S de Quarteira. Foi ali que, no final dos anos 80, tive a minha primeira experiência como professora, antes de iniciar o meu percurso profissional na área da comunicação.

Tinha acabado de concluir a licenciatura em Comunicação Social e, naquela época, as oportunidades profissionais no Algarve, onde residia, eram escassas.

Com apenas 24 anos, comecei a dar aulas de Inglês a turmas do 5.º ano. Já então havia falta de professores – não é, portanto, um problema recente – e muitos eram contratados sem formação específica para o ensino, como era o meu caso. Alguns tinham apenas o 12.º ano.

Dessa experiência guardo várias histórias, algumas bastante caricatas.

Uma delas aconteceu numa sessão fotográfica realizada na escola. Quando chegaram as fotografias, havia uma que ninguém conseguia associar a qualquer nome da lista de alunos.

Adivinham de quem era? Minha, claro. Tinham-me confundido com uma aluna!

No ano seguinte, fui colocada na Escola Secundária de Albufeira, onde lecionei Português ao 9.º ano e Jornalismo ao 11.º ano.

Foi uma experiência tão exigente quanto feliz. Estudei imenso e aprendi, enquanto professora, muito mais sobre o “Auto da Barca do Inferno” e o Canto I de “Os Lusíadas” do que alguns anos antes, enquanto aluna.

No final de algumas aulas de Português, lia poemas, na esperança de passar esta paixão aos alunos. Avisava que poderia sair quem não se sentisse confortável. A maioria permanecia na sala, ainda que com alguma vergonha.

A poesia tem esse poder: toca-nos e revela, com delicadeza, fragilidades que nem sempre sabemos ou queremos mostrar.

Nas aulas de Jornalismo, debatíamos com muito entusiasmo a abertura da televisão à iniciativa privada. Antes do aparecimento da SIC e da TVI.

Recordo também um debate memorável sobre o filme “O Clube dos Poetas Mortos” – uma história que, por uma feliz coincidência, voltou agora a cruzar-se comigo, desta vez em palco, no Teatro da Trindade.

Infelizmente, a minha licenciatura não me conferia habilitações próprias para o ensino, o que não me permitia a profissionalização de modo a integrar a carreira docente.

A experiência foi, por isso, demasiado breve. Mas deixou-me uma certeza: gostei muito de ser professora.

Gostava de partilhar conhecimento, naturalmente. Mas gostava, sobretudo, porque ensinar me obrigava a aprender todos os dias.

Talvez ensinar e comunicar tenham mais em comum do que imaginamos: ambos exigem escuta, curiosidade, escolha das palavras e vontade de criar ligações.

Décadas depois, continuo a escrever, a comunicar, a ler e a aprender.

Ou não fosse eu uma eterna aprendiz.

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